|
Flash
profissional
Essencialmente, sou
profissional da educação/formação!
Professor de Geografia desde
1988, embora a tenha
renegado (temporariamente!), porque a pouco e pouco me fui
embrenhando pelos meandros das tecnologias educativas até me
entregar por completo...
Em 1998 coordenei um projecto Nónio na escola onde exercia
funções e entre 2000 e 2007 integrei a equipa do Centro de
Formação e Competência Nónio Proformar (que está na génese
do actual Centro de Formação
AlmadaForma) onde me dediquei ao desenvolvimento de projectos pedagógicos
de/com TIC de âmbito local, nacional e transnacional.
A participação activa em
diversos projectos europeus, Comenius e Grundtvig, foi uma
experiência pessoal extraordinariamente importante que me
permitiu desconstruir muitos preconceitos e estereótipos e
consciencializar-me do potencial que existe nas nossas
escolas.
Foi também no Centro
Proformar que estabeleci o primeiro contacto com a Educação
e Formação de Adultos, tendo participado na criação do
primeiro Centro RVCC de Almada.
Actualmente, continuo a
colaborar com o Centro AlmadaForma e trabalho no
CNO-Cacilhas
(Centro Novas Oportunidade de Cacilhas) onde exerço as
funções de formador de Cidadania e Empregabilidade (Nível
Básico) e de Cidadania e Profissionalidade (Nível
Secundário). Sou igualmente formador de Cidadania e
Profissionalidade na Associação de Desenvolvimento do
Torrão, num curso EFA de dupla certificação.
Autobiografia - uma história de vida, ou a história de
uma vida?
Em qualquer caso e ainda que em breves apontamentos,
representa um esforço enorme pelas tantas memórias que há
que desempoeirar para entre elas escolher as que mais
indelevelmente nos marcaram; as que foram decidindo a pessoa
que somos.
Optei por definir contextos e, em cada um destes, tentar
encontrar os átomos e outras partículas da minha identidade.
Este é um exercício de auto-análise e simultaneamente, um
desafio: traduzir em palavras pensamentos que fui
desenvolvendo mas que nunca expressei com a convicção que o
texto escrito, porque permanece escrito, exige.
Ainda uma nota: enquanto
formador de Cidadania e Profissionalidade no Processo de
Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências -
Nível Secundário, proponho aos formandos a evidenciação de
competências nas suas Autobiografias. Resolvi fazer o mesmo;
por isso, a verde encontram-se assinaladas as competências
de CP, que foram desenvolvidas de acordo com os critérios de
evidência do Referencial de Competências-Chave para a
Educação e Formação de Adultos - Nível secundário.
O país que me fez crescer
Ideias, ideais e idealismos
A Escola e a vida
Glocalização
1961, o princípio do fim do Salazarismo. Nasci e cresci no
ambiente turbulento de um país em guerra com o Mundo e
consigo próprio, numa família comum que, como tantas outras,
se diluía nos valores dominantes - Deus, pátria, trabalho...
Durante os treze anos seguintes, a guerra em África , sem
nunca ser tema de conversa, viria a estar omnipresente na
minha existência: - eram os primos que lá estavam e os que
já por lá tinham passado; era um dos meus irmãos que estava
prestes a deixar a adolescência; eram as histórias que se
ouviam; e era o meu pai, agente da PSP, que para não ser
mobilizado para o "ultramar", se tinha voluntariado para a
Companhia Móvel (vulgus polícia de choque).
Entretanto, lá fui crescendo, por entre medos escondidos e
nervos dominados a custo, em cada vez que uma carrinha azul
vinha buscar o pai, às vezes durante a noite, sem nunca se
saber bem para onde, nem para o quê. Depois, lá voltava,
outra vez nervoso... e silencioso! Dessas coisas não se
falava, nem tão pouco da pistola e outros apetrechos que
estavam a salvo de olhares mais curiosos no local mais
resguardado da casa, uma espécie de "santo dos santos".
Desses anos, vividos na Rua da Penha de França, em Lisboa,
guardo ainda mais algumas memórias. Aprendi a andar (fui
retardatário!) num hospital, quando fui visitar o meu pai
que estava internado. Tinha sofrido uma cirurgia; não me
lembro a quê, mas retenho a cor do pijama que tinha vestido.
Lembro-me também da minha mãe, sempre piedosa, na Igreja,
com um véu de renda na cabeça muito compenetrada nas suas
orações, enquanto eu analisava os rostos sofredores e
estáticos dos santos nos seus altares. E do lagarto negro,
enorme, que havia por cima da porta do cartório; e do quadro
do inferno que também lá estava, envolto na neblina de uma
lenda qualquer que narrava peripécias de um padre
milagreiro.
Por vezes, aos Domingos, terminada a infalível Missa, outro
ritual que não se podia perder era a demonstração de
operacionalidade e vigor que as hordas da Legião Portuguesa,
cujo quartel era logo ali ao lado, faziam pelas ruas,
enchendo de risos escondidos quem passava. Ao desacerto dos
tambores aí iam os desacertados legionários tentando apertar
as barrigas proeminentes dentro da farda.
Bem vistas as coisas, com a clareza que a distancia temporal
permite, as fardas foram um elemento importante dos meus
primeiros anos: era o cotim dos legionários, mas também
aquela combinação verde e castanha, da Mocidade Portuguesa
(o meu irmão mais velho era Chefe de Quina ou de "esquina"
como se dizia!); era o preto e branco duma ordem de freiras
que me iniciaram nos meandros da espiritualidade; era,
claro, a farda cinzenta do meu pai e era também a bata
branca, que era a farda de quem estava prisioneiro dos
deveres escolares.
Recordo o terramoto de 68, a bicharada dos quintais em
alvoroço, a cama a trote pela casa e os vizinhos com
comportamentos mais estranhos que o costume.
E recordo a voz do comentador José Mensurado, em 69,
tentando dar cor às imagens a preto e branco dos primeiros
passos do Homem na Lua. As imagens pouco nítidas reforçavam
o cepticismo da minha avó a quem, para explicar as coisas de
que pouco entendia, bastavam as razões divinas. Eu, pelo
contrário, com a emoção com que qualquer miúdo vive as
viagens espaciais, estava siderado a ver e ouvir os
astronautas …
Vivemos naquela casa até 1973 e foi nesse ano que atravessei
pela primeira vez a ponte que ainda era de Salazar e que me
trouxe definitivamente para a “outra banda”. Por essa
altura, o meu pai já havia deixado de ser um fiel servidor
da Nação e passara a ser um fiel servidor num banco da baixa
lisboeta. A minha mãe, por seu lado, continuava a ser a fiel
servidora da família. Foi a meio do quadro familiar simples
do vaivém para a escola, para o trabalho ou para o mercado
(conforme os casos) e que fazia lembrar uma célebre lição
do também célebre Livro de Leitura da Terceira Classe, que a
Revolução dos Cravos chegou. Surpreendendo-me, primeiro, mas
conquistando cada vez mais espaço na minha lista de
interesses, à medida que o tempo ia passando.
Os anos subsequentes à revolução foram conturbados em todo o
país, mas muito especialmente a Sul do Tejo. As
manifestações mais intensas de revolta pelo passado recente
e de reivindicação dos novos valores de liberdade, justiça
social e democracia e o confronto e debate de ideias e
opções, apanharam-me a meio do Liceu e faziam parte das
acaloradas discussões que tinha com os meus amigos, onde se
defendiam até à exaustão grandes ideias pouco fundamentadas.
Foi um tempo importante em que recolhi avidamente
informações sobre o passado que me permitiam compreender
tantas coisas daquele presente tão confuso. E ao mesmo tempo
que adquiria a bagagem de conhecimento histórico que
continuamente comparava com as minhas experiências de vida,
alicerçava a consciência cívica e política. Aprendi uns
acordes de guitarra e as canções durante tanto tempo
silenciadas. Observei com atenção a sucessão de
manifestações e contra-manifestações. Sobre todos os
assuntos emiti opiniões convictas, quase sempre depois de as
ler ou ouvir do autor original...
(CP8 Institucional)
Por essa altura eu integrava um grupo de jovens da
comunidade católica onde residia, que era muito
diversificado quanto às origens, às idades, género, condição
económica e ideologia política. Havia trabalhadores de
várias áreas profissionais, estudantes do Ensino Secundário
e do Ensino Superior. Unia-nos um forte espírito de
comunidade e uma ideia de Igreja interventiva no plano
espiritual mas também social. Esforcei-me, como os meus
amigos por ter essa atitude pro-activa e empenhei-me com
eles em transformar alguns princípios em actos solidários
concretos. Embora enquadrados numa organização de inspiração
católica, a nossa intervenção cívica ultrapassava as
fronteiras psicológicas da paróquia e era ponto de honra
para todos manter a independência e autonomia em relação ao
poder religioso instituído, o que aliás nos valeu várias
vezes condenações sumárias como as de renegados, comunistas,
defensores da teologia da libertação ou mesmo hereges. Estas
pressões só alimentavam a fogosidade da nossa juventude e
davam-nos a força necessária para continuar a intervir
editando jornais, fazendo teatro, promovendo encontros,
debatendo todos os assuntos sem tabus; mas também cantando,
jogando à bola, acampando, invadindo o mar da Caparica.
Na verdade foi entre pares que desenvolvi as ideias de
comunidade, liberdade e responsabilidade.
(CP1 Institucional, CP6 Institucional)
Hoje reconheço que a minha consciência política resulta
destes dois vectores: as experiências vividas no tempo da
ditadura logo seguidas das experiências vividas na
liberdade. A liberdade chegou e abriu caminho à democracia
que foi avançando titubeante, a princípio, mais confiante à
medida que o fantasma do fascismo se desvanecia. Os
portugueses habituaram-se depressa, creio, à democracia e
eu, pessoalmente, interessei-me cada vez mais em conhecê-la
e compará-la com as alternativas que a História e a Ciência
Política me ajudaram a conhecer. A liberdade de pensamento e
de expressão, o pluralismo e o respeito por todas as ideias
mesmo que minoritárias, são valores que fui interiorizando e
que ainda hoje norteiam a forma como quero estar presente e
activo na nossa sociedade.
Em 1979 viria a exercer pela primeira vez o meu dever de
voto numas eleições autárquicas. Não, não me enganei! Embora
a Constituição do Portugal democrático consagre o voto como
um direito, considero-o também um dever moral e cívico de
participação na vida política do meu país, ou seja na tomada
de decisões que nos vão responsabilizar a todos perante a
História. Votar escolhendo os nossos representantes, a quem
mandatamos para tomar decisões em nosso nome, é uma das
formas de participarmos activamente, embora indirectamente,
na governação do país. “O povo exerce o poder político
através do sufrágio universal, igual, directo, secreto e
periódico, do referendo e das demais formas previstas na
Constituição” (Artigo 10.º da Constituição da República
Portuguesa); “a participação directa e activa de homens e
mulheres na vida política constitui condição e instrumento
fundamental de consolidação do sistema democrático, devendo
a lei promover a igualdade no exercício dos direitos cívicos
e políticos e a não discriminação em função do sexo no
acesso a cargos políticos” (Artigo 109.º da CRP).
E assim me fui tornando militante sem filiação
partidária. Militante da liberdade, do pluralismo e da
política... ou da coisa pública, para que não restem
confusões! Todas estas aprendizagens ocorreram enquanto me
metamorfoseava de menino em homem, o que acarretava mais
aprendizagens; de outro tipo, naturalmente, mas igualmente
importantes!
Entretanto, decidi unilateralmente que depois da
independência cultural, política e parental, era chegada a
hora da independência financeira - fui trabalhar, tendo
obtido o acordo familiar, na condição de continuar os
estudos à noite. E assim foi; (CP8 Privado)
uma mistura de orgulho pela palavra
dada e de ambição pessoal, foi-me impelindo a vencer os
momentos de fraqueza na autodisciplina escolar que, não
sendo nada fácil para quem estuda de dia é ainda muito pior
no turno da noite, depois de um dia de trabalho e tendo de
ultrapassar apelos muito mais interessantes. Mas eu
reconheço que tinha uma vantagem relativamente aos que agora
estão na mesma idade: eu tinha a perspectiva que, se
aumentasse as minhas qualificações obteria certamente um
estatuto socioprofissional de acordo com os meus objectivos
a longo prazo. Portanto, resisti (a maior parte das vezes)
às tentações e fui ultrapassando (com mais ou menos
dificuldade) os obstáculos que foram aparecendo e hoje
reconheço que fui eu que decidi, em grande parte, que futuro
queria ter, apesar das incertezas e “certezas” próprias da
juventude.
Depois de uma experiência de trabalho em part-time
numa IPSS (cerca de um ano), iniciei aí a minha vida
profissional e contributiva aos 18 anos, como monitor de
Actividades de Tempos Livres, enquanto concluía a Matemática
do Ensino Secundário e frequentava o Ano Propedêutico que
foi a minha primeira experiência de ensino/aprendizagem a
distância.
(CP3 Privado)
No trabalho, que eu pensava que ia ser temporário, formava
uma equipa com uma colega que era universitária em Filosofia
e que me iniciou nas lides da pedagogia (que ela também
andava a estudar). Desenvolvíamos actividades lúdico-pedagógicas com crianças do 1º e 2º ciclos do Ensino
Básico, o que quer dizer que trabalhava num mundo que a
sociedade atribuía exclusivamente às mulheres e que era
efectivamente dominado por elas.
Confesso que no início, me incomodavam os olhares
indiscretos que me observavam e julgavam, como que
exclamando “uma educadora tão grande e com barba!” (que
usava à época), quando andava pela rua rodeado de miúdos.
Muitas vezes me interroguei se aquele trabalho “feminino”
justificaria a independência económica que tinha alcançado.
Mas o tempo, a possibilidade de fazer um trabalho criativo,
a empatia com os tais miúdos e o muito que aprendi com as
colegas, ajudaram-me a ultrapassar o meu preconceito e o
estereótipo que eu próprio tinha sobre quem trabalha em
educação de crianças. Passei a assumir conscientemente o
papel de educador e de modelo masculino numa instituição em
que havia eu e 38 mulheres. Posteriormente, vários homens
vieram a desempenhar as mesmas funções, tanto naquela
instituição como noutras congéneres, o que me leva a pensar
que contribui positivamente para uma alteração de
mentalidades, quer das pessoas, quer das próprias
instituições de educação locais. Aliás, a enorme
desconfiança com que foi encarada pela entidade empregadora
a minha entrada no quadro de pessoal, desvaneceu-se
decorrido pouco tempo.
A imagem que melhor representa os meus anos 70, é a de um
cadinho repleto de uma matéria amorfa e em ebulição, da qual
eu percepcionava que resultariam cristais quando
arrefecesse, embora não vislumbrasse ainda quais. E os
cristais foram-se formando ao longo de mais uma década.
Agosto de 1982 ficou marcado pela minha incorporação no
Exército. Depois de cinco longos e penosos meses na Escola
Prática de Infantaria em Mafra, seguiram-se mais doze no
Regimento de Infantaria de Beja. A guerra em África já tinha
terminado havia oito anos, mas o "in" ainda estava emboscado
numa guerrilha em que os cheiros e os sons de África estavam
muito presentes. Mais uma vez, os filmes dos teatros de
operações e os relatos ainda frescos de muitos oficiais que
fizeram a guerra com o posto que eu agora tinha,
constituíram pedras angulares da minha construção do mundo,
do meu país e do meu povo. Foi nessa altura, por exemplo,
que percebi claramente porque é que a revolução tinha sido
perpetrada pelos Capitães, as motivações que os tinham
conduzido e o caminho sinuoso que, mais tarde, muitos
percorreram e que viria a terminar no 25 de Novembro.
Caricato, foi ver alguns desses militares, revolucionários
mesmo depois da Revolução, a desfilar perante os dirigentes
políticos à época, numa evocação daquela data. Foi também,
ouvindo os relatos de quem experienciou os acontecimentos,
que compreendi a inevitabilidade da descolonização meio
atabalhoada e, sem esquecer os dramas pessoais e familiares
decorrentes, percebi que frequentemente as responsabilidades
continuam a não ser assacadas a quem foi realmente
responsável pela perpetuação de um colonialismo anacrónico
que condicionou Portugal ao isolamento, ao atraso e até à
chacota internacional.
Mas o Serviço Militar também foi uma oportunidade de
crescimento a outros níveis. Com 23 anos assumi o comando de
uma unidade operacional composta por 36 homens, 31 dos quais
não eram militares de carreira, estavam a cumprir o serviço
obrigatório e não tinham qualquer motivação para ali
estarem. Era uma unidade de intervenção rápida e, em
consequência, todos andávamos armados com munições reais, fosse em exercícios, fosse em
acções de patrulhamento fora da Unidade.
(CP6 Profissional, CP7 Profissional)
Nestas
circunstâncias, a gestão de conflitos (que eram praticamente
diários) tornava-se um assunto deveras delicado, até porque
muitas das missões que eram atribuídas não eram do agrado de
ninguém, como era o caso das que colidiam com fins-de-semana
ou das que exigiam treino específico para a sua
operacionalização. Uma das coisas que fui aprendendo é que a
autoridade nunca é imposta de cima para baixo, mas
reconhecida de baixo para cima. Um comandante “manda com”, o
que implicava sempre que possível a escuta activa dos
subordinados e uma atitude cooperante e assertiva com todos.
Além disso, cada homem tinha características e competências
próprias e era em função delas, das relações sociométricas
que se estabeleciam, da auscultação das razões dos
militares envolvidos e ,evidentemente, do meu próprio juízo, que tomava as decisões que me
competiam.
1982 foi também o ano em que ingressei na Faculdade de
Letras da Universidade de Lisboa no Curso de Geografia,
embora só tenha começado a frequentar as aulas dois anos
depois, quando terminei o Serviço Militar, já com 24 anos.
Os anos de academia, que coexistia com o mundo laboral que
havia interrompido, trouxeram-me definitivamente a
maturidade intelectual e uma visão integradora dos fenómenos
que "fazem" uma sociedade.
Em
1988 tomei a iniciativa de me candidatar ao concurso
de colocação de professores (para leccionar o que
ainda andava a aprender!) arriscando um trabalho mal pago mas
seguro, pela incerta condição de professor provisório; sem
grandes convicções nem motivações, diga-se de passagem, a
não ser uma necessidade de mudança e a expectativa
desafiante de uma nova profissão e um novo estatuto social.
(CP1 Privado)
Foi também o ano em que formalizei pelo casamento o projecto
de vida com a mulher que tinha escolhido oito anos antes. Já
estava habituado à autodeterminação o que se tinha tornado
de certo modo viciante, portanto, iniciar uma vida a dois
exigiu da minha parte algum esforço de adaptação. Claro que
casar foi um acto de liberdade pessoal, mas o bem comum
requer alguma cedência de autonomia, a assunção de
responsabilidades partilhadas como o pagamento de despesas
ou a gestão doméstica e o desenvolvimento de projectos
conjuntos. No entanto, creio que o casamento não deve anular a
personalidade das pessoas nem impedir alguns espaços e
tempos de liberdade pessoal. Por exemplo, o casamento não me
impediu a prática durante mais de 12 anos de desporto
federado (cicloturismo), nem de outras actividades com amigos e colegas.
Em 1990 conclui a Licenciatura em Geografia. A experiência
que entretanto tinha desenvolvido enquanto professor,
revelou-se muito mais gratificante do que eu próprio
imaginava no início e, impulsionado pelo sucesso, pedi
reingresso à Universidade para frequentar a Variante de
Formação Educacional, que vim a concluir em 1992. Estava
consumada a minha entrada definitiva na carreira do Ensino.
Os anos 90 foram os de maior crescimento económico no país.
O bem-estar geral deixou de ser uma miragem e, com o passar
do tempo fui-me apercebendo que as grandes causas, como por
exemplo as que marcaram os anos da revolução, eram agora
antiguidades esvaídas de sentido, principalmente para as
gerações que já nasceram na democracia. Os objectivos de
vida são agora determinados mais pelo facilitismo que pela
conquista, mais pelo consumismo imediato que pela capacidade
de optar, mais pelo que parece ser que pelo que é. A
prosperidade trouxe mais dinheiro, sem dúvida, mas
empobreceu as mentes e provocou uma miopia tal, que mal se
consegue ver para além do umbigo.
Também eu, certamente, me fui instalando no conforto que um
melhor nível de vida me deu. Creio, todavia, nunca ter
perdido de vista as grandes referências que sempre me
guiaram. Por isso, nunca me limitei a deixar correr os dias
e por onde fui passando, seja no domínio privado,
profissional ou na sociedade civil, fui também interagindo.
Chegou, entretanto, o fim milénio... ou, como sempre preferi
pensar, o início do milénio! "Há um tempo para tudo" (Eclesiastes)
e provavelmente ainda não está na hora de fazer retrospectivas deste
terceiro milénio que mal começou. Parece, no entanto, que os
tempos estão conturbados como nunca. A "aldeia global" gerou
uma cidade global com um centro hiper-desenvolvido e um
subúrbio que varia entre o bairro de lata e o mais hediondo
limbo onde ser Homem nada significa. A cidade global está
insustentável e perigosamente desequilibrada... não sei se
mais ainda, que nos velhos tempos da guerra fria.
(CP5 Macro-estrutural)
Há povos que continuam a
esmagar outros povos, porque têm sede de poder e de riqueza;
a intolerância e o racismo recrudesceram; voltaram as
cruzadas e as intifadas; prevalece a lei do mais forte e o
valor do ser humano tornou-se tão desprezível que se
justificam todas as guerras, massacres e atentados que nos
entram pela casa dentro através dos média.
Foi por isso que vivi intensamente os tristemente famosos
acontecimentos em Timor após a descolonização. Primeiro, revoltado com
a repressão, a violência e o desrespeito pela vida a que
aquele povo esteve sujeito; espantado com a sua capacidade
de resistência a uma potência militar esmagadora; e depois
em júbilo pela mobilização que o nosso país foi capaz de
fazer após o referendo de 1999. O antigo colonizador
assumindo as suas responsabilidades históricas, revelou ao
Mundo uma conduta moral exemplar e afirmou-se
internacionalmente, ao defender até ao limite do possível a
dignidade do povo de Timor e o seu direito à
autodeterminação.
Mas, os homens
e os povos são capazes do melhor e do pior! O atentado às
Tween Towers em 2001 (cinco décadas após a II Guerra
Mundial) assinala o dia em que a guerra, o terrorismo e a
insegurança passaram a ser também fenómenos globais.
Nós, por cá, todos bem... ou se calhar nem tanto! Tudo
depende dos termos de comparação! Creio que vivemos tempos
de expectativa, de incerteza e de insegurança(s), que se
reflectem numa auto-estima que já viu melhores dias. Dizem
alguns pensadores que há uma crise de valores a montante da
crise financeira... eu prefiro pensar que faltam as grandes
causas. Pela minha parte, ainda consigo encontrar algumas,
ou pelo menos, esforço-me por não me desenquadrar totalmente
daquelas em que sempre me revi.
Ideias, ideais e idealismos
Considero-me criativo e moderadamente teimoso... ou
persistente! Por
outras palavras, ideias não me faltam e por aquelas em que
me empenho, sou capaz de lutar até ao fim... ou seja, até
passarem de projecto para a algo concreto. Não o afirmo com
o espírito de auto-elogio, mas com o de gratidão para com a
vida, que me facultou as oportunidades para desenvolver essa
capacidade.
Afinal, a maior parte do que somos (sem querer destituir a
genética do seu papel) resulta de um somatório de
experiências, de vivências, de contactos, de acasos mais ou
menos importantes, que vão sendo lidos e processados ao
nível do consciente e se vão inscrevendo na matriz obscura
do subconsciente. E assim, lenta e despercebidamente nos
vamos transformando no ser único que cada um de nós é.
Das ideias aos ideais - um percurso natural, pois os
ideais resultam do desenvolvimento daquelas ideias que vamos
formando no nosso consciente que, por serem tão importantes,
acabam por determinar a nossa atitude perante a vida. Um
ideal de vida não se compra, não se herda; é construído
dia-a-dia, pelos sítios onde passamos, com as pessoas com
quem criamos cumplicidades e com aquelas de quem divergimos.
Adiciona-se a capacidade reflexiva e é assim que se criam os
nossos
quadros de referências.
E quais são, então, os meus ideais? Não é coisa que se
enumere facilmente, mas mesmo que considerados em planos tão
distintos como o
espiritual, o político, o social, ou o estético, penso que
consigo encontrar um denominador comum que se condensa na frase: "uma vida com um sentido!" E como nenhum homem é
uma ilha, uma vida com sentido implica que todos, eu,
aqueles com quem me cruzo e aqueles que nunca conhecerei,
possam viver com a dignidade que a razão e o humanismo conferem e exigem.
Encontrar um sentido, ou sentidos, para a vida (a minha
vida), é o mesmo que percorrer uma espiral; começa-se pelo
centro, mas em cada circunvolução vamo-nos afastando do
mesmo e adicionando novos contextos àqueles que já de
nós faziam parte. Ou seja, vamos perdendo a visão de nós
próprios como centro do mundo e adquirindo a visão de nós
próprios como parte de um mundo cujo centro não sabemos onde
é, nem se existe. Deixamos de ver apenas um azulejo para ver
a parede toda e, assim, ao mesmo tempo que nos diluímos,
enriquecemo-nos. Enquanto vou percorrendo a minha espiral,
vou também procurando os meus "sentidos", pelos sítios que
vou atravessando, nas pessoas que se atravessam no meu
caminho e nos enigmas que me atravessam o pensamento.
(CP5 Privado, CP6 Privado, CP7
Privado)
Ainda assim, afirmarei os meus grandes ideais, o meu
referencial de vida: considero-me
um republicano, laico, da esquerda moderna e democrática. O mesmo significa dizer
que defendo um modelo de sociedade organizada num Estado
Democrático, em que todos os órgãos de soberania sejam eleitos por sufrágio universal; uma sociedade organizada um
Estado de Direito subordinado a uma Constituição, por sua
vez subordinada à Declaração Universal dos Direitos do
Homem; uma sociedade assente na trilogia Liberdade (civil e
política), Igualdade (na dignidade, nas oportunidades e
perante a Lei) e Fraternidade (entre cidadãos, entre povos,
entre Estados); uma sociedade organizada num Estado que
garanta a todos os cidadãos os direitos e liberdades
fundamentais, mas que permita o desenvolvimento de uma
sociedade civil onde o cidadão comum, individualmente ou em
associação, possa exercer cabalmente a sua cidadania activa
e responsável; finalmente, uma sociedade laica, em que
há uma separação absoluta do poder estatal e do poder
religioso, mas que respeite e não discrimine as igrejas e
confissões religiosas.
Volto aos sentidos e à
procura de um sentido para a vida! Os ideais só têm sentido
se materializarem em atitudes. Daí a minha presença
pro-activa nos diversos domínios em que uma vida se
desdobra: privado, profissional e social. Sou uma pessoa
assertiva, quer no que se refere aos actos quer às palavras
e considero todos os espaços e tempos propícios para o
exercício da cidadania: uma conversa com amigos, uma leitura
partilhada, ou o microblogging nas redes sociais da
internet, são tão propícios como uma sessão de formação em
cidadania propriamente dita; de igual modo a predisposição
para a autonomia e flexibilidade no trabalho e para a
formação contínua; ou ainda para o voluntariado. Como
exemplos posso apontar as comunidades virtuais que dinamizo
(http://cidmais.wordpress.com/,
entre outras), a minha disponibilidade para ter integrado o
Conselho Directivo da EB 2,3 da Alembrança (durante 4 anos),
a frequência do Curso de Mestrado em TIC e Educação (com
vista à valorização pessoal e qualificação), a participação
voluntária num projecto de recuperação de jovens em risco
(Projecto Horizon na Costa de Caparica), ou ainda o
voluntariado no âmbito da formação em TIC e Cidadania (numa
IPSS de Almada). Todas foram ou são experiências
gratificantes, mas que exigem disponibilidade a vários
níveis, sendo que um dos mais importantes, é a
disponibilidade para a tolerância e aceitação da diferença –
diferentes formas de pensar, diferentes prioridades,
diferentes idades e sexos, diferentes condições
sócio-económicas, diferentes graus de cultura, diferentes
quadros ideológicos, diferentes competências... “todos
diferentes, todos iguais” no humanismo, que deve(ria) ser o
nosso fio condutor no labirinto da vida.
Há quem pense que os ideais são próprios da juventude, fase
da vida em que a generosidade e a entrega às grandes causas,
se explica pela inconsciência a raiar a irresponsabilidade e
pela imaturidade própria de quem ainda viveu pouco. Com o
passar do tempo, vêm os compromissos familiares,
profissionais e outros. Aí, tudo muda, não há mais tempo
para pensamentos metafísicos e a maturidade conduz, enfim, a
outras preocupações mais mundanas como o estatuto, o
reconhecimento social, o bem-estar financeiro e o conforto
de uma vida previsível.
Coisa mais enganadora (em minha opinião, claro está) não pode
haver! Se perdermos a centelha de idealismo que nos verdes
anos nos levavam a mover montanhas, cristalizamos e, em
pouco tempo, esvai-se o sentido da procura de sentidos.
Então, as nossas preocupações resumir-se-ão ao colesterol e
à hipertensão, ao automóvel que ambicionamos apresentar, ao
enriquecimento da colecção de electrodomésticos e outros
trastes que nos empeçam o caminho e, quanto a preocupações,
o melhor será ficarmo-nos pelo futebol ou pela telenovela!
Com frequência regular, notaremos todos os males do mundo,
atirando para o abstracto dos que nos governam as culpas,
pois nós nada podemos fazer!
Espero nunca vir a envelhecer tanto! Mesmo que a vida me
ofereça outros (quase) cinquenta anos...
A Escola e a vida
A vida tem destas coisas! Eu que nunca me entusiasmei muito
com a escola enquanto estudante, dei em professor!
Devo confessar que a decisão de me tornar professor, não foi
uma opção fundamentada num sentimento forte de vocação, mas
em razões muito mais veniais, de sobrevivência económica. E
assim, lá comecei em 1988 por debitar umas noções, teorias,
dogmas e certezas, "incentivando" os alunos a cumprir
aquelas tarefas - ler, memorizar e reproduzir - cuja
utilidade eu próprio ainda me esforçava por compreender!
Mas as coisas mudam e a verdade é que nos bancos da escola,
agora no papel de professor, enquanto ensinava, aprendi
muito... Impõe-se uma correcção: estes verbos, ensinar e
aprender, tem de ser colocados no tempo presente. Um
professor está sempre em idade escolar!
Fundamentalmente, considero-me um educador, passe a quase
displicência com que, com uma simples palavra, me reporto a
uma tão grande responsabilidade. E porque creio que a
educação e a "escola cultural" são um direito de todos e um
dever da sociedade para com todos, a minha intervenção na
Escola, rapidamente deixou de se limitar a uma sala de aula
e a um conjunto de conceitos muito bem definidos e arrumados
num programa curricular. Ensinar Geografia, ou qualquer
outra área do saber, só tem verdadeiramente sentido num
contexto mais vasto de educação; educação para a cidadania,
educação ambiental, educação para os valores (éticos, senão
morais!)...
Ajudar os jovens a descobrir o papel da Geografia, na
compreensão de um mundo que é fantástico, imenso de coisas
ainda por descobrir e maravilhosamente belo, apesar de
tantos desequilíbrios, colocou-me em rota de colisão com as
Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC). À medida em
que fui percepcionando o seu enorme potencial informativo e
formativo, fui igualmente desenvolvendo um conceito de
escola alargado em relação ao espaço físico que a encerra,
mais inter-disciplinar que multi-disciplinar, um espaço de
trocas muito para além das que se processam na relação
professor/aluno dentro da sala de aula. Numa escola moderna,
torna-se necessário criar espaços e tempos para que alunos e
professores possam experienciar a aventura do conhecimento
para além do espaço/tempo aula e, desta forma, articular
cada vez mais a escola com as exigências da moderna
“sociedade da informação”.
Considero as TIC como uma ferramenta e não mais que uma
ferramenta, para uma "escola cultural". Deverão, portanto,
ser encaradas como um meio e não um objectivo terminal a
atingir, caso contrário poderemos cair no absurdo da escola
informatizada mas não informada, com muitos computadores e
muitos processos automatizados, mas sem que estes sirvam
verdadeiros projectos educativos.
No limiar do terceiro milénio, a iliteracia ainda existe e
exclui!
O desenvolvimento de competências na utilização TIC, só
ganha o seu verdadeiro sentido se considerado numa
perspectiva transversal em relação às diferentes disciplinas
e, não será demais recordar que, nos nossos dias, literacia
tecnológica é muito mais do que a capacidade de operar com
um computador pessoal; é ser capaz de procurar, de
processar, de produzir, de comunicar, de trabalhar
colaborativamente... porque é isso que se espera que o Homem
do séc XXI seja capaz de fazer - utilizar a internet como
plataforma de construção conjunta do conhecimento.
Mas convenhamos que esta
mudança não é fácil; nem vai ser rápida! Nós todos
aprendemos naquele modelo de Escola transmissiva que
incorporámos no nosso subconsciente apesar de, por vezes, o
consciente o rejeitar. Por outro lado, parece-me que as
instituições ainda são mais resistentes à mudança que as
pessoas. E isto não é algo que tenha a ver com a idade!
Mas claro, é urgente a mudança: adaptar a Escola às
necessidades da sociedade actual. Os desafios de uma escola
moderna, são enormes e, por isso mesmo, tão interessantes. E
também são muitos diversificados! Um deles é a Educação e
Formação ao Longo da Vida.
(continua... quando tiver
tempo!) |